8
Uma única pessoa e as mercadorias no
mesmo lugar de sempre. Comércio pequeno. Cidade pequena. Gente pequena. Um vida
pequena como não pode deixar de ser sempre por ali. A loja aberta e ninguém
mais dentro. Só o dono. A fazer o inventário. Conferir o estoque para a
proximidade da reabertura. Trabalho solitário. Chato, Necessário e irrecorrível.
Comércio pequeno. Cidade pequena. Pouca coisa a inventariar. Nada mudava muito.
De repente um grito. Gente na porta aglomeração. Mais grito. Não compreendia o
que estava acontecendo. Levanta os olhos e os gritos continuam. dentro da loja.
Fora da loja. Na pequena rua da cidade pequena. Uma loja perdida numa cidade
perdida numa região perdida do país. Tudo pequeno, Menos o grito. Estridente.
Autoritário “O que você está fazendo?”. O inventário, conferindo o estoque.
“Você não pode abrir a loja. É proibido. O prefeito disse que é proibido.
Baixou decreto. É proibido”. Populares na porta. Mais gritaria. Confusão. Os
carros circulam tranquilamente pela ruazinha em frente à loja da lojinha. “Vamos
embora”. Clima tenso dentro da loja. O
comerciante resolve fechar as portas. Usa máscara. Atravessa a loja seguido
pelos policiais. “Fecha e vamos embora. Não pode abrir. Discussão com agentes da polícia municipal. Os
policiais militares na cola do dono da lojinha. Populares na porta. Dentro da
loja, ninguém. Os carros passando tranquilamente. Os policiais militares fecham
a lojinha. Populares gritando. O dono da loja. Alguém supõe que há resistência.
“Bora Moreira. Vamos levar para a Central. Não tem conversa. Se resistir leva
algema”. Há muita certeza. Muita arrogância e certeza. Números, estatísticas,
certezas científicas. Muita preocupação com o social. Enquanto isso, na
cidadezinha perdida no meio do nada, os carros passam tranquilos na rua. As
pessoas não ligam mais. Uns e outros, meia dúzia de gatos pingados em volta.
Moscas varejeiras. O dono da lojinha tranquilo, segue algemado. O surto. A
queda. A espuma na boca. O corpo tremendo. Os policiais incrédulos. O corpo que se bate. A espuma na
boca. As moscas varejeiras gritando. Confusão. Mesmo assim, os carros passam
tranquilos na ruazinha, em frente à loja, no meio da cidadezinha perdida no
meio do nada. O lojista se aquieta. As varejeiras vão embora. Os guardas,
inertes, observam. Pedidos de socorro. Solta, grita um. Chama a ambulância
grita o outro. Enquanto isso, um carro a mais passa pela ruazinha. vai em
direção à câmara municipal. Um vereador preocupado com o bem estar social a
caminho de uma reunião. Votação de projeto de lei para mudar regulamento de
licitação. Compra de material de construção para obra pública. O vereador preocupado
vota sim. Doze por cento garantidos. Abraços. Cumprimentos. Conversas de pé de
ouvido. O bem estar municipal garantido. A porcentagem garantida. Mais um dia produtivo.
Para os policiais, um problema. O que fazer com o epilético? Solta, grita um.
Chama a ambulância, grita o outro. A lojinha fechada. Em casa, a mulher do
lojista discute com a vizinha. Reclama da falta de remédios. A vizinha diz que
é assim mesmo. Não tem jeito. Já não há ninguém na ruazinha da cidade pequena
em frente à loja fechada. Os carros já não são tantos. O sol já se pôs e o
calor amainou um pouco. Já não há quase ninguém na rua. Muita estatística,
certeza científica e dados em tempo real. Os filhos do lojista brigam com a
filha da vizinha porque ela não quer emprestar o celular. As aulas à distância
perdida. a mãe grita. Chama os filhos pra dentro. Vai pra cozinha. Muita estatística,
tempo real, dados científicos. A máscara. As aulas à distância. Mais um dia
passa e a lojinha vai ficar fechada. O ataque passou. O dono da lojinha não
sabe como vai tirar o sustento da família. A lojinha fechada. A polícia
municipal satisfeita n cumprimento da lei. Os militares descansados com a
melhora do dono da loja. A rua vazia, iluminação pouca. Esgoto a céu aberto.
Placas de vende-se pra todo lado. Ninguém andando. Silêncio quente. Calor
parado. A lojinha fechada. Alguma explicação há de haver. Quem pode dizer o que
de fato aconteceu. Pouca gente viu. Quase ninguém para além dos limites reduzidos
da cidadezinha pequena vais e interessar. Não houve morte. Não dá notícia. Calor.
Noite calma, sem confusão. Mais um dia que se acaba. A lojinha vai continuar
fechada. Até quando, ninguém sabe. Mas vai ficar, Em nome do bem estar social.
Como explicar isso para uma criança curiosa?
Comentários
Postar um comentário