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Foi ao longo de um período. Longe de ter sido um acontecimento
fortuito, gratuito, sazonal. Definitivamente foi o contrário. A primeira
manifestação veio quando do comício. A chuva. A multidão, O discurso inflamado
do candidato, as aulas “matadas” para ir até a praça da estação ouvir o candidato.
Se o outro, preparado, experiente, muito bem formado fez o que fez, em
detrimento de seus iguais, talvez a mudança radical fosse uma possibilidade
concreta. O apoio. A dúvida dançando sob a chuva, na praça da estação, ao sabor
do vozerio da patuleia que gritava. Uma noite memorável. O tempo passa e tudo parece
continuar no mesmo compasso. “Mudam-se os ventos...”, mas as vontades não
mudaram tanto assim. E a coisa degringolou. Gastos, montes de dinheiro
desaparecido. Compras inexplicadas. Inaugurações fora dos imites nacionais. Hospedagens
em andares inteiros de hotéis caríssimos. Joias para as esposas. Compra de
votos para eventos gigantescos, sem retorno algum. Um festival de horrores.
baile de máscaras tenebroso. A mesma cantilena que desfez a esperança. O melhor
amigo comemorando a felicidade crescente da população. Mais gente nos teatros,
restaurantes e aviões. Mais gente nas universidades. “A que preço? Quem vai
pagar essa conta? De onde vai sair o dinheiro?”. A amizade de décadas destruída
por uma brincadeira gratuita, provocativa, mas humorística, galhofeira. Comparação
destruidora. O sarcasmo deslavado. O fim. E a festa continua. Depois foi a vez
daquele de longe. Um único encontro pessoal. Correspondência intensa.
Reafirmação de votos. Convite para integrar o Silogeu. Nada. Tudo igual. “Por
favor, não me escreva mais. Não posso mais ler oque você me escreve. Como não concordo
e sei que você não vai mudar, prefiro cortar a amizade por aqui mesmo”. Fim, Mais
um. A tristeza por perceber a distância da compreensão, a estreiteza de
horizonte. A repetição dos lugares comuns, das palavras de ordem, das opiniões consensuais.
Nelson Rodrigues estava certo sobre a estupidez do consenso. Tudo sempre na
mesma tecla. O mesmo do mesmo. Cada vez ais adensada a mesma cor. Um baque
forte. A ex-aluna. Menina exemplar, brilhante. Mente autônoma em franco crescimento
e fortalecimento. O carinho quase paternal. A amizade que rendeu viagens a uma
região então desconhecida: o sertão. Três vezes. Uma delícia. a amizade que se
estreita pelo intelecto, amarrado pelo fato. Sublime. E o mesmo coro de corvos
por detrás, num momento de surpresa indigesta. “Só quem não tem cérebro é que
leva este senhor a sério. Quem concorda com ele só pode ser estúpido”. Vaticínio
irrecorrível seguido do mesmo pedido. O corte, o fim, o desdém. Completo. A
reclamação por espaço na atitude que reprime o mesmo espaço. Incompreensível.
Na capital federal, por último se fez o egrégio repetir ritual das mesmas
balelas. “Não me mande mais esse tipo de mensagem. Não posso concordar. Tenho
nojo disso tudo”. Que pena. Que triste. A á de cal, até prova em contrário, no
distrito federal. Depois de quase trinta anos. O reencontro esperado, muito
ensaiado. Adiado. O desencontro com o filho mais novo. Justamente o que era
mais desejado. Nina e Bernardo. Que visão. A passagem do tempo e o
amadurecimento. O livro de contos da Clarice como presente de aniversário.
Rever aquele sorriso redondo. Escutar aquela voz de sotaque misto, com um “s”
muito particular, entre dentes. A saudade saciada em copos de vinho, risadas e
fatias de pizza. Com os “meninos”. Dois deles só. Mas ainda os meninos. A
conversa solta. O papo de fim de noite. O nome daquela mulher aparece no papo.
Como? A propósito de quê? Como é que
pode alguém que celebra a mandioca? Que diz que atrás de cada criança tem um
cachorro? Que fica pesarosa porque não há como estocar vento? Que discute os
motivos da pasta de dente não voltar para o dentifrício? Isso é lá possível? Cara
fechada. Motivos não faltam, mas eu te amo, diz ela. Isso não é do jeito que
falam. Não se pode dizer isso. É sequela das torturas. Como assim? E veio a
morta-viva. Numa brincadeira de humor negro. E os cinco pontos de exclamação em
seguida: “Se não tem, convicção pra quê publicar?”. Onde o sentido. Onde a razão?
Em que ponto da História ficou o bom senso? A percepção de que o motivo da
crítica é o objeto de outra crítica. Simples assim. Anos de espera. O esmo
quadro se repete. A mesma cantilena. O mesmo pedido. O mesmo corte. Deve haver
um padrão nisso. Não há de ser algo aleatório, como se nada tivesse acontecido
antes. Parece haver um ritmo metonímico de construção desse pensamento. Se é
que isso pode ser mesmo chamado de pensamento. Onde a lógica? Por quê?
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